Economia em 2025: entenda por que o mercado errou e a inflação surpreendeu positivamente

Boletim Focus divulgado em janeiro de 2025 previa uma inflação de 4,99% no ano; índice fechou em 4,26%

Em 3 de janeiro de 2025, o relatório Focus do Banco Central apresentava previsões para alguns indicadores da economia mais pessimistas do que o que realmente ocorreu no ano. A previsão para a inflação oficial, medida pelo IPCA, era de 4,99% — acima do teto da meta da autoridade monetária, que é de 4,5%. No entanto, o IBGE apurou 4,26% no ano. Ou seja, o mercado errou por uma margem de 0,73 ponto percentual.

Durante o ano, apenas o mês de fevereiro teve inflação superior a essa margem de erro: o IPCA fechou aquele mês em 1,31%.

O Índice Geral de Preços–Mercado (IGP-M) caiu 0,01% em dezembro, invertendo a taxa registrada em novembro, quando subira 0,27%. Com esse resultado, o índice encerrou o ano de 2025 com queda acumulada de -1,05%. O Focus cometeu um erro ainda maior nessa previsão, calculando que o indicador fecharia o ano passado com alta de 4,87%. O mercado previa que o dólar fecharia 2025 valendo R$ 6,00, mas a moeda acabou cotada a quase R$ 5,50, demonstrando estabilidade e contribuindo para que a inflação ficasse abaixo das previsões, principalmente no IGP-M.

O boletim acertou a Selic (taxa básica de juros da economia). Previu, em 3 de janeiro de 2025, que a taxa fecharia em 15%, o que de fato ocorreu.

Rafael Sueishi, head de renda fixa da Manchester Investimentos, ressalta que a meta estabelecida pelo Banco Central é de 3% para o IPCA, com um teto de 4,5%. Diante disso, o resultado de 2025 representou uma surpresa positiva. Em sua avaliação, diversos fatores contribuíram para essa desaceleração, destacando-se três forças que exerceram menor pressão sobre os preços do que o esperado pelo mercado.

Em primeiro lugar, a política de juros elevados implementada pelo Banco Central. A manutenção da Selic em patamares altos, em torno de 15% após um ciclo de alta, representou uma medida restritiva. “Essa política, embora comumente associada a efeitos adversos, mostrou-se eficaz na redução da inflação ao encarecer o crédito e, consequentemente, reduzir o consumo. Na prática, o aumento dos juros torna os financiamentos mais onerosos, desestimulando a aquisição de bens duráveis, como veículos e eletrodomésticos. Paralelamente, as empresas enfrentam maior sensibilidade dos consumidores aos preços, o que dificulta o repasse integral dos custos”, afirmou.

Em segundo lugar, o especialista aponta a desaceleração dos preços dos alimentos. Em 2024, o grupo de alimentação e bebidas registrou inflação superior a 7%. Em 2025, por outro lado, a taxa ficou abaixo de 3%. A alimentação no domicílio apresentou uma variação ainda mais expressiva, passando de 8,23% para 1,43%. “Essa redução foi determinante para a contenção do índice geral, dado o peso dos alimentos no IPCA. A queda de preços de itens essenciais, como arroz (26%) e leite (12%), resultante em parte do aumento da oferta, ajudou a aliviar a pressão”, completa.

Por fim, o câmbio favorável e o cenário global também influenciaram a trajetória da inflação para um índice menor do que o previsto no início de 2025. A valorização do real frente ao dólar, aliada a um ambiente global menos propenso à inflação importada, conteve o aumento de custos. “O real, que iniciou o ano cotado próximo a R$ 6,00, encerrou 2025 em patamar inferior a R$ 5,50. Uma moeda mais forte reduz os preços ou impede aumentos significativos em itens atrelados ao dólar, como insumos, eletrônicos e commodities”, explica Sueishi.

Apesar dos resultados positivos, ele alerta que alguns fatores ainda demandam atenção. “O setor de serviços registrou uma aceleração, atingindo 6%. Além disso, os preços monitorados e administrados também apresentaram crescimento, indicando persistência inflacionária em determinados setores”, conclui.

Alimentos e combustíveis ajudaram 

O economista Paulo Casaca, da Fundação Ipead/UFMG — instituto que também mensura a inflação em Belo Horizonte —, lembra que, no início do ano passado, o mercado estava bastante pessimista com o governo Lula devido ao anúncio da medida do Imposto de Renda, que aumentou a faixa de isenção para R$ 5 mil e acabou sendo aprovada pelo Congresso no fim de 2025. Isso fez com que o câmbio se desvalorizasse fortemente na época, com o dólar ultrapassando os R$ 6,30, o que gerou turbulência no mercado de crédito.

“Quando Gabriel Galípolo assumiu a presidência do Banco Central, o Copom (Comitê de Política Monetária) já tinha sinalizado três aumentos de um ponto percentual para a taxa Selic com o objetivo de controlar a inflação, o que de fato ocorreu. A inflação foi controlada, em partes, por conta do efeito do aumento da taxa de juros. Mas é óbvio que, além disso, outros fatores contribuíram para que a inflação desacelerasse, como a questão do preço dos alimentos”, explica o economista.

Casaca relata que alimentos como café e tomate iniciaram o ano com preços elevados, mas a situação foi se aliviando ao longo do período devido ao equilíbrio entre oferta e demanda. “Essa pressão dos alimentos foi se desfazendo e não tivemos mais, principalmente no segundo semestre de 2025, questões que fizessem com que a inflação fosse puxada por esse setor”, completa. “Também demos sorte por não haver grandes variações no mercado internacional do petróleo (o que foi positivo para aliviar os preços dos combustíveis no Brasil)”, conclui.

Houve ainda o “efeito Trump”, com medidas que fizeram o dólar se desvalorizar em relação a várias moedas do mundo. “Isso contribuiu para a economia brasileira, pois, com a valorização do real frente ao dólar, reduziu-se a pressão inflacionária vinda de produtos e insumos importados”, disse o economista.

Sobre 2026, ele analisa: “Esperamos uma questão inflacionária parecida com a de 2025, sem grandes surpresas negativas em alimentos e combustíveis. Também esperamos, obviamente, que a taxa de juros comece a cair. De fato, 15% ao ano é um patamar proibitivo. Ajuda a controlar a inflação, é verdade, mas, por outro lado, acaba prejudicando o setor de investimentos do país, que depende de crédito mais barato. Isso afeta as empresas e a população consumidora como um todo”.

Como é feita a pesquisa Focus

O Relatório Focus resume as estatísticas calculadas com base nas expectativas de mercado coletadas até a sexta-feira anterior à sua divulgação, que ocorre toda segunda-feira. O relatório apresenta a evolução gráfica e o comportamento semanal das projeções para índices de preços, atividade econômica, câmbio e taxa Selic. É importante notar que as projeções são do mercado, e não do Banco Central.

A pesquisa envolve mais de 170 instituições, como bancos, corretoras, consultorias e universidades, que enviam suas projeções semanalmente. O BC consolida esses dados e divulga a mediana das previsões.

Publicado por O Tempo – Caderno de Economia – em 13 de janeiro de 2026 | Reportagem de Karlon Aredes

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