Preços em queda numa BH que ninguém vê

Confira no balanço das suas contas quando anotou, pela última vez, alguma redução de despesas ou mesmo queda de preços de produto ou serviço frequentes na sua lista de consumo. É, de fato, uma resposta fácil de ser dada, principalmente, num ano em que a inflação voltou a fustigar os bolsos dos brasileiros, com os aumentos persistentes dos alimentos, além do agravamento da crise na economia. Quem perceberia alguma baixa de preços num cenário em que o arroz encareceu mais de 44% neste ano, o feijão-carioquinha ficou quase 18% mais caro e o tomate é encontrado a preços 16,2% maiores que em janeiro?

Não parece, mas essa mesma inflação, que sacrifica as famílias de menor poder aquisitivo desde o início da pandemia, estaria mais alta não fosse um pelotão de itens se movendo na direção contrária, da deflação. Em Belo Horizonte, esse grupo foi liderado, no mês passado, pela queda de 4,19% da tarifa de energia elétrica nas residências. O seguro voluntário de veículos também barateou (4,95%), com base na pesquisado IPCA, medido pela Fundação Ipead, vinculada à UFMG.

São dois serviços que têm participação expressiva na composição do índice da inflação na capital. Caíram também os preços das excursões, em 1,95%, e do condomínio residencial, em1,25%. Até mesmo entre os alimentos – o carro-chefe das remarcações que assustam nas prateleiras – devem ter passado despercebidas as reduções dos custos do mamão (-34,4%), iogurte (-11%), maçã (-6,95%), batata-inglesa (-10,17%), cebola (-11.93%), pão de forma (-7,17%) e ovo (-5,81%).

A coordenadora de pesquisas da Fundação Ipead/UFMG, Thaize Martins, informou que 75 produtos apresentaram preços mais baixos em setembro, o que representa 31% dos 242 itens que compõem a pesquisado IPCA em BH. Outros 55 mostraram estabilidade, enquanto 46% encareceram.

“Não fosse esse grupo de produtos, a inflação estaria muito mais alta. A cada ida ao supermercado é um susto com os aumentos, por isso a sensação de que tudo está encarecendo”, diz Thaize. É engano entender que a percepção de preços em queda seja perda de tempo, diante da inflação alta dos alimentos. Conferir os movimentos dos preços significa vera importância deles para pressionar ou impor um freio à inflação. Ajuda, ainda, a administrar o orçamento e, em alguns casos, a fazer escolhas na hora de comprar.

A rigor, cada família tem a sua inflação, resultado de dois fatores combinados, as variações dos preços dos produtos e serviços consumidos e como esses itens participam do orçamento familiar. Isso explica a dificuldade que os mais pobres têm enfrentado. A disparada dos preços dos alimentos não deixa opções, já que a comida representa 58% da inflação que retrata os gastos das famílias com renda entre um e cinco salários mínimos na capital mineira, o IPCR, da Fundação Ipead/UFMG.

Thaize Martins observa que não há perspectiva de alívio importante na inflação. Dependerá do comportamento dos alimentos, que continuam a pressionar o custo de vida num momento em que itens não alimentares começam a encarecer.

As experiências mal-sucedidas dos planos de estabilização monetária adotados no Brasil, os tempos da espiral inflacionária dos governos Sarney (1985 a1990), Collor (1990-1992) e parte do mandato de Itamar Franco (1993) criaram memória da inflação que tornou natural a percepção da alta de preços e a dúvida sobre as quedas.

Encontre uma dona de casa, mesmo aquelas acostumadas a fazer o planejamento e executar o orçamento familiar, que identifique baixa de preços e terá cumprido tarefa complicada. Outro fator fundamental para entender esse fenômeno é que boa parte das quedas de preços percorre longo caminho até chegar às prateleiras do varejo. 

Caso clássico é o do repasse dos preços de produtos influenciados pelo dólar. Quando a cotação da moeda norte-americana sobe, a alta costuma chegar de imediato ao consumidor final, cena típica dos Natais de iguarias importadas. Quando o dólar se retrai perante o real, o repasse não só demora a alcançar o varejo como, em boa parte das vezes, nem chega ao consumidor.

Fonte: Jornal Estado de Minas – Publicado em 10 de outubro de 2020 por meio da repórter Marta Vieira do caderno Minas em Foco.

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